Bem-Vindo à Freguesia
de Sousela

A Senhora do Ó, ou a Senhora da Expectação.

date set 26, 2014 date Lendas e Tradições

Escreve Augusto Soares Moura, “ Por volta do ano de 1700, vivia em Sousela uma rapariga lindíssima, já casada, modelo de todas as virtudes, menos a de procriar: já perdera dois filhos e passara por dores que só as mulheres podem avaliar. E estava grávida, de novo. A vida dela era mais angústia e terror do que propriamente vida porque às duas por três é de vez, e ela não queria morrer por nada deste mundo.

Numa tarde, saiu do mal amanhado casebre e, toda desgrenhada, andou por ali a tropeçar nos rebos, com uma grande entalação na garganta; deu-lhe então uma dor mais forte na barriga e ela arrimou-se ao primeiro encosto que viu e que era um penedo negro, feio e bojudo como a barriga dela; e julgou que ia ter o filho ali mesmo, a céu aberto, como acontecia, a cada passo, às mulheres de então. As dores eram muito fortes e a desesperada da mulher começou a esfregar o ventre contra o penedo, sempre a espiar para os lados não fosse andar alguém por ali e ver aqueles jeitos desavergonhados e, por fim, de cima para baixo, da direita para a esquerda e da esquerda para a direita. Mas não passavam as dores. Meio enlouquecida, mas sem perder a fé, a moça implorou:

- Ó minha Nossa Senhora! Ó minha rica Senhora, valei-me! Ó… Ó…

E o imenso e feio penedo, e negro como o desespero dela, tornou-se branco! Passadas poucas semanas, a jovem teve um robusto rapaz, sem dores de maior. O penedo conservou-se branco e ajudou muitas outras parturientes que junto dele se ajoelharam e boas-horinhas tiveram.

Agora a gratidão: andavam na altura a construir a nova Igreja e a feliz mãe, com o seu garoto ao colo, foi pedir ao mestre carpinteiro que lhe fizesse um estátua de Nossa Senhora daquele granito branco do penedo miraculoso mas “com barriguinha a ver-se bem” que, em paga, trabalharia para ele, de graça, o resto da vida. O artista desfez o penedo à marretada, trabalhou a pedra e fez a imagem, diz-se que tão linda como a rapariga, e com uma barriga cheiinha, como lhe fora pedido.”

Acrescenta o Autor, “Talvez a narrativa tenha algo de lendário mas não sei o que poderá ser porque a escultura foi colocada na frontaria da igreja e todos podem ir lá vê-la e a padroeira da freguesia, que era Santa Maria desde os tempos de D. Afonso Henriques, passou a ser Nossa Senhora da Expectação ou Senhora do Ó, como ainda é nos tempos que correm.”

De nada nos serve como prova ou efeito para a lenda deste fenómeno a não ser a palavra vinda de geração em geração arrastada por um povo fiel à sua identidade, e que ao mesmo tempo que vai marcando a imagem do local, enriquecendo as suas heranças memoriais e afetivas por um simbolismo remarcado em cada geração.

(Lousada antiga, Augusto Soares Moura, pag 143-144/1ªparte)
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