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set 26, 2014 |
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Lendas e Tradições |
Importa falar desta lenda, embora a sua origem não surja na freguesia de Sousela, ela assume um significado de extrema relevância para o património local uma vez que é pelas encostas das serras e montes da freguesia de Sousela que o rio, que nasce na “Pedra da Obstinada Paixão”, ganhou a sua forma e fez desenvolver esta região.
Augusto Soares de Moura, Autor do livro, “Lousada Antiga – das origens à primeira república, 2009, relata o seguinte: “-Este caso nada tem a ver com lendas e pouco com tradições. É mais uma história certa que lenda, embora história nascida há centenas de anos nos montes de Lustosa e de Santa Águeda. Também a pedra da história é mais que uma pedra, é um penedo (…) a principio não devia ter nome nenhum, depois, não acharam outro melhor que não fosse “a da obstinada paixão”. O pergaminho do qual surge a justificação das delimitações de terreno são de 1258 mas a obstinada paixão é muito mais antiga porque a demarcação das grandes terras para os senhores das classes altas parece que já vem dos tempos dos Godos e que até os Mouros, que vieram depois deles, teriam destruído muitos desses marcos.”
Assim sendo surge a lenda: “- havia um rapaz e uma rapariga, como há sempre nestas histórias. Que se amavam muito, com um amor muito simples mas proibido. Ele era, afinal, o que hoje chamaríamos de presidiário ou condenado; naquele tempo, o homem era um “homiziado”, um refugiado numa das raras reservas dos grandes senhores que tinham o privilégio de conceder o “homizio”, acolhendo os perseguidos pelas justiças os quais ficavam então ali para sempre a trabalhar sem paga e com a certeza de que se saíssem dos limites do refúgio, se fossem apanhados, no mínimo, lhes arrancavam os olhos. Ela era livre e muito bonita e, por isso, o senhor daquela terra (chamavam-lhe o tenente Sousa”) já a tinha escolhido para seus deleites, mas andava a deixá-la crescer um pouco mais.
Parecia (o amor do rapaz e da rapariga) um amor inocente, quase brincadeira de criança mas, na verdade, indomável. Ele sabia que não podia sair do refúgio, ela sabia que o não podia r buscar. Era uma cruz à frente deles, uma submissão resignada ao sofrimento que a paixão sempre traz. Falavam-se por gestos vagos, incompreensíveis para os outros, ele recortado na cumeeira dos montes, ela esbatia nas sombras da fonte. Ou, então, contentando-se simplesmente em adivinharem a presença um do outro, oculta algures entre o arvoredo, como pássaros. Parece que se encontravam junto do penedo grande, às escondidas, naturalmente; já os tinham visto apertados num só pelos braços do outro e logo a fugir, escaldados, cada um para seu lado. No resto, era um amor igual aos outros: pensar no bem-amado, dia e noite, tentar adivinhar o que ele está a fazer, antegozar o próximo encontro e, entretanto ver-se longe a longe, ao longe. Um dia, o pai da rapariga decidiu casá-la para acabar com a toleima e comunicou a decisão ao “senhor da terra”, como era de uso, porque estes tinham o direito de passar a primeira noite com a noiva se quisessem. O tenente Sousa quis e marcou a noite.
Agora, o que não sabemos é como os namorados comunicavam um com o outro mas sabemos que o amor faz destes milagres, de se entender por baques de coração ou presságios inexplicáveis. O certo é que se encontraram, à noitinha, junto ao penedo mas nem conseguiam falar, pelo desespero que os tolhia por inteiro. Depois, sem mais, começaram a chorar, a chorar aos soluços mas a chorar sempre, num choro que nunca mais acabava; as palavras continuaram encravadas e não subiam nem desciam na garganta enquanto as unhas a lavras a carne e os desaustinados puxões de cabelo faziam dó; e também os apertos e desapertos, encontrados ou atabalhoados, foram muitos, muitos e durante muito tempo, com aquela meiga violência dos condenados que se despedem de vez. Então aconteceu: as lágrimas daqueles jovens, escorridas das faces ora coladas ora esfregadas em loucura uma contra a outra, formaram um débil regato que começou a afastar-se a medo pela encosta a baixo, como criança a balbuciar os primeiros passos. Eu acredito que aconteceu porque, ainda que algumas lágrimas se sumissem pela terra dentro, ainda sobrariam muitas para manter aquele fiozinho correndo.
Tanto consta que o par estava em pé quando o “Tenente” chegou de espada ao alto, como consta que os dois estavam deitados no tecto do penedo, que é quase horizontal, mas todos concordam que pareciam atarraxados um ao outro, que não deram por nada e morreram trespassados pela fúria de uma só cutilada.”
O penedo continua lá, no meio do embaraçado monte de ervas e giestas, e é respeitado por esta lenda. Tem um orifício estreito e profundo no centro.
O Rio Mezio
O nome poderá ter vindo de OMEZIO, palavra antiga a que corresponde homicídio. Para a maioria dos investigadores de onomástica (ciência que estuda os nomes em todos os géneros), indicava uma zona onde os criminosos e homicidas fugiam à justiça. Várias quintas de fidalgos tinham o privilégio de couto de homizio e bastava que um criminoso tocasse nos seus muros para já não ser preso.
Antigamente era conhecido por rio de Sousela e só chamado de rio Mezio a partir de Sampaio de Casais (memórias paroquiais 1758).
Pela serra escorrem vários canais que se juntam ao crescimento do caudal do rio Mezio, um deles é o rio de São Cristóvão ou rio de Santa Águeda como lhe chamam alguns.
O rio Mezio trata-se de um curso de água de reduzidas dimensões, com uma extensão total de 28 quilómetros, 10.5 dos quais em território do concelho de Lousada, onde apresenta uma orientação genérica norte-sul. Com uma área total de bacia hidrográfica de apenas 38.2 km2, abarcando os concelhos de Lousada, Paredes e Penafiel, o rio Mezio apresenta um percurso sinuoso que termina no lugar de Souselinho, na freguesia de Santiago de Subarrifana (Penafiel), onde desagua. No concelho de Lousada o rio Mezio atravessa, de montante para jusante, as freguesias de Lustosa, Sousela, Ordem, Casais e Nevogilde.
Ao longo dos primeiros dois quilómetros do troço superior do rio, que corresponde, grosso modo, à zona alta da freguesia de Sousela, o Mezio apresenta um declive pronunciado c. 9,4%), Enquanto percorre, em caudal rápido, um vale relativamente profundo, com encostas arborizadas e encaixadas. Os indícios de arroteamentos são escassos e limitam-se a pequenas leiras em socalcos, próximas do leito do rio, cuja granulimetria é constituída por grandes blocos graníticos e a vegetação aquática é praticamente inexistente. A partir de Sousela até às freguesias da Ordem (c. 200 metros de altitude) e depois Casais e Nevogilde (c. 170 metros de altitude), o vale do rio Mezio torna-se progressivamente mais aberto e o declive diminui substancialmente (c. 3,8% na freguesia da Ordem e 0,5% em Casais e Nevogilde), com as margens baixas, frequentemente regularizadas por muros de pedra, a serem ocupadas integralmente por terrenos de cultivo. A redução da velocidade da corrente permite o aparecimento, neste troço inferior, de sedimentos finos e, por conseguinte, o desenvolvimento de alguma vegetação aquática, frequentemente acompanhada por uma galeria ripícola arbórea onde, para além de espécies exóticas assilvestradas, como o plátano (Platanus orientalis var. acerifolia), predominam espécies autóctones como o choupo (Populus sp.), o salgueiro (Salix sp.) e o amieiro (Alnus glutinosa).