Memórias Paroquiais de Sousela
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set 25, 2014 |
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Outras curiosidades e interesses |
SOUSELA
Abadia
Padroado/Apresentação: Arcebispo da Sé de Braga
Arcebispado de Braga, visita Sousa e Ferreira (3.ª parte)
Concelho de Aguiar de Sousa
Sebastião Pinto de Macedo, abbade desta parochial igreja de Santa Maria de Souzella, vezita da Terceira Parte de Souza e Ferreira, deste Arcebispado de Braga Primaz, satisfazendo a hua ordem ambulatoria com hum quaderno de interrogatorios em letra redonda, do Muito Revendo Senhor Doutor Provizor da cidade de Braga Primaz.
1. Primeiramente esta freguezia de Santa Maria de Souzella hé da Provincia de Entre Douro e Minho, Arcebispado e comarqua de Braga, termo da cidade do Porto, concelho de Aguiar de Souza.
2. Hé sugeita a Sua Real Magestade, que Deos goarde.
3. Tem esta freguezia vezinhos cento e dezaseis, e quatrocentas e quarenta pessoas, de toda a qualidade.
4. Está esta freguezia situada a maior parte della em ribeira, e a outra parte em altos e montes. E della se descobrem varias freguezias como hé Sancta Eullalia da Ordem, e Sam João de Covas, e Sam Thiago de Figueiró, e Sam Pedro de Reimonda, vezinhos desta freguezia. E povoassam maior a villa de Arrifana de Souza, distante hua legoa.
5. Hé termo da cidade do Porto.
6. A igreja desta freguezia está situada, pouco mais ou menos, no meio della, e fora dos lugares. Somente tem as cazas de rezidencia ao redor della. Tem esta freguezia os lugares seguintes, a saber, o lugar de Moreira, e o lugar da Boavista, e o lugar do Bairral, e o lugar de Olival, e o lugar de Breguada, e a aldeia de [Buiois]e Balteiro, e aldeia da Boussa.
7. O orago desta igreja hé a Senhora Expectassão. Tem esta igreja sinquo altares, o altar maior em que está colocado o Santissimo Sacramento, com sua irmandade, em que se venera o Santissimo nos Domingos terceiros e no dia da festa. Segundo, o altar de Nossa Senhora do Rozario, com sua irmandade. E o terceiro o altar de Sam Jozé, com sua irmandade das Almas. O quoarto, o altar do Menino Deos, com a sua irmandade do Sucino. O quinto, o altar do Senhor Crucificado. Não tem naves. Tem a igreja sua torre com dous cinos.
8. O parocho desta igreja hé abbade, tem seu coadjutor. Hé aprezentassão do Senhor Arcebispo Primaz. Tem de renda quatrocentos e vinte mil reis, excepto o passal e pé de altar, que rendem cem mil reis, pouco mais ou menos.
9. Tem hum beneficiado simples de vinte mil reis, posto no mesmo beneficio por Bulla Apostolica.
10. Nam tem conventos.
11. Nam tem hospital.
12. Nam tem caza de Misericordia.
13. Tem esta freguezia três cappellas, a saber, a cappella de Sam Christovam dos Milagres e Santa Agueda, na mesma cappella, onde se diz missa. E outra mista no mesmo sitio com a imagem de Sancto Christo, na qual se nam diz missa, de baixo da qual sahe hua grande fonte, que lanssa por três biquas. E estão estas duas cappellas situadas entre dous montes, longe de cazas e solitarias. Tem mais outra cappella da Senhora da Conseissam, na qual se diz missa, sita no lugar de Breguada. São estas cappellas do povo e são da jurisdissão do senhor Ordinario. Tem mais hua cappella de Passo, no Calvario da Senhora da Piedade, e nam se diz missa nella.
14. Na cappella de Sam Christovam há romagem e ajuntamento de povo aos sinquo dias de Fevereiro, em dia de Santa Agueda, e na segunda oitava do Espirito Santo e vespora e dia de Sam Thiago, vinte e sinquo de Julho, e dia de Todos os Santos. E também pello decurso do anno vem alguns devotos em romaria à dita cappella, mas nam hé continuadamente.
15. Os frutos desta terra mais abundantes são centeio e milho e feijam, bastante vinho verde, há linhos, castanha, e pouco azeite e mais frutas ordinarias e mais legumes de hortalices.
16. A justissa desta terra hé o ouvidor deste concelho de Aguiar de Souza, a quem está esta freguezia sugeita, e juntamente ao corregedor da comarqua do Porto.
17. Esta freguezia como hé da jurisdissam real, chamam-lhe do devasso, por nam ser honra, nem couto.
18. Nam há noticia de pessoas que florecessem nesta terra.
19. Nam tem feira.
20. Serve esta terra do correio da villa de Arrifana de Souza, que dista hua legoa.
21. Dista esta freguezia da cidade capital do Arcebispado de Braga, sinco legoas e da cidade de Lisboa, cappital do Reino, cessenta legoas.
22. Nesta freguezia algumas pessoas tem seus privellegios, como são os de Malta e Tabolas Vermelhas.
23. Nesta freguezia nam há fonte especial, senão a fonte assima dicta de Sam Christovam, da quoal se aproveitam varias pessoas com a fé que tem ao mesmo sancto.
24. Nam há nesta terra porto de mar.
25. Esta terra nam hé murada.
26. Nam ouve ruina no Terremoto. Enquanto à serra desta freguezia.
1. Chama-se serra de Santa Agueda, e tem este nome porque munto antiguamente teve no mais alto della hua cappella da mesma sancta, e ainda lá estão os vestigios della.
2. Terá a dicta serra de comprido três quartos de legoa, e de largo meia legoa. Principia nesta freguezia e acaba no Bom Jezus de Barrozas.
3. Botam alguns brassos della para a freguezia de Santa Eulalia da Ordem e para a freguezia de Silvares, e para a freguezia de Sam Thiago de Lostoza.
4. Em hua parte desta serra chamada as Lameiras da Reimonda, principia hum rio limitado, que passa pello meio desta freguezia, de muita utelidade para regar as terras da mesma e mais circunvezinhas. Corre para a parte do Sul e fenece no rio chamado rio Souza.
5. Nam há na dicta serra villas, nem lugares.
6. Nam tem fontes de propriedade, mas sim fontes de que se utilizam os moradores para regar os frutos.
7. Tira-se na dicta serra pedra bastante para obras de cazas.
8. Hé monte de lenhas de que se utilizam os moradores para seu queimar.
9. Nam tem a dicta serra igrejas, nem mosteiros.
10. O seu temperamento hé bastante frio.
11. Tem bastante cassa de coelhos, lebres e perdizes e rapozas, a que se faz montaria.
12. Nam tem lagoas, nem fojos.
13. Enquoanto ao rio desta freguezia.
1. Chama-se nesta freguezia o rio de Souzella, e o sitio onde nasce se chama a Lameira da Reimonda, da freguezia de Sam Thiago de da Lostoza.
2. Nasce manso e corre todo o anno.
3. Neste rio nam entra outroalgum nesta freguezia.
4. Nam hé navegavel.
5. Hé alguma couza arrebatado em partes, e em partes nam.
6. Corre do Norte a Sul.
7. Cria alguns peixes, trutas, bogas, enguias.
8. Algumas pessoas curiozas cassam nelle, mas nelle nam há pescarias publiquas.
9. Este rio hé commum para todos.
10. Cultivam-se muitos campos à beira deste rio. E tem bastantes arboredos de hua e outra parte de vinho e outras arbores sem fruto.
11. A virtude da sua agoa hé regar os campos.
12. Fora desta freguezia chama-se rio Mezio, desde a freguezia de Sam Paio para baixo.
13. Morre no rio Souza.
14. Tem levadas e assudas bastantes.
15. Tem nesta freguezia huma ponte de pedra.
16. Tem este rio nesta freguezia vinte e quatro muinhos e hum pizam.
17. Nam hánoticia que nelle se tirasse ouro.
18. Todos os moradores desta freguezia uzam das agoas deste rio para regar os seus campos, isto hé, os que os tem à beira delle, nos dias em que lhe pertence, sem que paguem pensam enquoanto ao rio.
19. Daqui duas legoas acaba no rio Souza e vai correndo pellas freguezias como hé Santa Eullalia da Ordem, Sam João de Covas, Sam Paio de Cazais, Novigilde, Beire, athé se meter no rio Souza, aonde finda. Hé do que posso enformar a Vossa Mercê Muito Reverendo Senhor Doutor Provizor Primaz, o que fiz e assignei com os dous parochos mais vezinhos desta freguezia, o abbade Sam João de Covas, deste Arcebispado, e o reitor de Santa Eullalia da Ordem, também deste Arcebispado que commigo assignaram. Sancta Maria de Souzella, de Maio, 16 de 1758. Menor subdito de Vossa Mercê, abbade Sebastião Pinto de Macedo. O abbade de S. João de Covas, Jozé Alves Ferreira. O reitor de Sancta Eulalia da Ordem, Pantaleam Machado d’Abreu e Silva.
Capela, José Viriato; Matos, Henrique & Borralheiro, Rogério (2009) - As freguesias do distrito do Porto nas Memórias Paroquiais de 1758: Memórias, História e Património. Braga: Ed. de Autor.
As Memórias Paroquiais de 1758 são o resultado de um inquérito realizado a todas as paróquias de Portugal.
O inquérito teve lugar em 1758, três anos após o sismo de Lisboa de 1755, a mando de Marquês do Pombal.
O questionário foi enviado a todos os bispos das dioceses do reino, para que fossem respondidos pelos seus párocos e remetidas as respostas à Secretaria de Estado dos Negócios do Reino .
A tarefa de proceder à organização das respostas de todos os documentos coube ao Padre Luís Cardoso, sendo concluída em 1832, já depois do seu falecimento, altura em que se terá completado o índice de todas as respostas aos inquéritos recebidos .
O inquérito estava dividido em três partes, sobre as povoações, sobre as serras e sobre os rios.
Na primeira parte, sobre as povoações, pedia-se resposta a 27 perguntas. Entre as perguntas, era possível saber onde a paróquia ficava situada, de quem era a jurisdição da localidade, qual a sua população, que título tinha o pároco e quantos eclesiásticos e respetivas rendas tinha a igreja, se havia conventos, hospitais, misericórdias, ermidas e romarias; se tinha alguma feira, privilégios e antiguidades, fontes ou lagoas, ou muralhas e castelo, bem como personagens ilustres. Perguntava-se também pelos serviços de correio, pelas produções da terra e pelos danos do sismo de 1755.
Na segunda parte, sobre as serras, colocavam-se 13 questões.
Na terceira parte, sobre os rios, eram colocadas 20 perguntas.
Todas as partes terminavam com a recomendação: «E qualquer outra coisa notável que não vá neste interrogatório». Era uma forma de captar outras particularidades da freguesia.
Do total das 4073 freguesias existentes em 1758, constam nas Memórias Paroquias de 1758 catorze paróquias cuja correspondência com as freguesias do mapa administrativo continental de 1991 não foi possível estabelecer, conhecendo-se, contudo, as províncias, comarcas, ou concelhos a que pertenciam no ano de 1758, e que se indicam a seguir entre parênteses: Covide (Neiva), Escutelo (Bragança), Pedrógão (Coja), Real de Corvos (Neiva), Sabugal (Foz Côa), Santiago (Óbidos, Alenquer), Santíssimo Milagre (Santarém), S. Antão (Évora), São Julião (Santarém), São Lourenço (Santarém), Senhora da Orada (Coimbra), Sérvio (Miranda do Corvo), Valongo (Douro), Vila Real (Juromenha) .
As perguntas colocadas foram as seguintes :
Parte I: O que se procura saber da terra
1. Em que província fica, a que bispado, comarca, termo e freguesia pertence.
2. Se é d’el-Rei, ou de donatário, e quem o é ao presente.
3. Quantos vizinhos tem, e o número de pessoas.
4. Se está situada em campina, vale, ou monte e que povoações se descobrem dela, e quanto distam.
5. Se tem termo seu, que lugares, ou aldeias compreende, como se chamam, e quantos vizinhos tem.
6. Se a Paróquia está fora do lugar, ou dentro dele, e quantos lugares, ou aldeias tem a freguesia, e todos pelos seus nomes.
7. Qual é o seu orago, quantos altares tem, e de que santos, quantas naves tem; se tem Irmandades, quantas e de que santos.
8. Se o Pároco é cura, vigário, ou reitor, ou prior, ou abade, e de que apresentação é, e que renda tem.
9. Se tem beneficiados, quantos, e que renda tem, e quem os apresenta.
10.Se tem conventos, e de que religiosos, ou religiosas, e quem são os seus padroeiros.
11.Se tem hospital, quem o administra e que renda tem.
12. Se tem casa de Misericórdia, e qual foi a sua origem, e que renda tem; e o que houver de notável em qualquer destas coisas.
13. Se tem algumas ermidas, e de que santos, e se estão dentro ou fora do lugar, e a quem pertencem.
14. Se acode a elas romagem, sempre, ou em alguns dias do ano, e quais são estes.
15. Quais são os frutos da terra que os moradores recolhem com maior abundância.
16. Se tem juiz ordinário, etc., câmara, ou se está sujeita ao governo das justiças de outra terra, e qual é esta.
17. Se é couto, cabeça de concelho, honra ou beetria.
18. Se há memória de que florescessem, ou dela saíssem, alguns homens insignes por virtudes, letras ou armas.
19. Se tem feira, e em que dias, e quanto dura, se é franca ou cativa.
20. Se tem correio, e em que dias da semana chega, e parte; e, se o não tem, de que correio se serve, e quanto dista a terra aonde ele chega.
21. Quanto dista da cidade capital do bispado, e quanto de Lisboa, capital do Reino.
22. Se tem algum privilégio, antiguidades, ou outras coisas dignas de memória.
23. Se há na terra, ou perto dela alguma fonte, ou lagoa célebre, e se as suas águas tem alguma especial virtude.
24. Se for porto de mar, descreva-se o sítio que tem por arte ou por natureza, as embarcações que o frequentam e que pode admitir.
25. Se a terra for murada, diga-se a qualidade dos seus muros; se for praça de armas, descreva-se a sua fortificação. Se há nela, ou no seu distrito algum castelo, ou torre antiga, e em que estado se acha ao presente.
26. Se padeceu alguma ruína no terramoto de 1755, e em quê, e se está reparada.
27. E tudo o mais que houver digno de memória, de que não faça menção o presente interrogatório.
Parte II: O que se procura saber da serra
1. Como se chama.
2. Quantas léguas tem de comprimento e quantas tem de largura, aonde principia e acaba.
3. Os nomes dos principais braços dela.
4. Que rios nascem dentro do seu sítio, e algumas propriedades mais notáveis deles; as partes para onde correm e onde fenecem.
5. Que vilas e lugares estão assim na Serra, como ao longo dela.
6. Se há no seu distrito algumas fontes de propriedades raras.
7. Se há na Serra minas de metais, ou canteiras de pedras, ou de outros materiais de estimação.
8. De que plantas ou ervas medicinais é a serra povoada, e se se cultiva em algumas partes, e de que géneros de frutos é mais abundante.
9. Se há na Serra alguns mosteiros, igrejas de romagem, ou imagens milagrosas.
10. A qualidade do seu temperamento.
11. Se há nela criações de gados, ou de outros animais ou caça.
12. Se tem alguma lagoa ou fojos notáveis.
13. E tudo o mais que houver digno de memória.
Parte III: O que se procura saber do rio
1. Como se chama assim, o rio, como o sitio onde nasce.
2. Se nasce logo caudaloso, e se corre todo o ano.
3. Que outros rios entram nele, e em que sitio.
4. Se é navegável, e de que embarcações é capaz.
5. Se é de curso arrebatado, ou quieto, em toda a sua distância, ou em alguma parte dela.
6. Se corre de norte a sul, se de sul a norte, se de poente a nascente, se de nascente a poente.
7. Se cria peixes, e de que espécie são os que traz em maior abundância.
8. Se há nela pescarias, e em que tempo do ano.
9. Se as pescarias são livres ou algum senhor particular, em todo o rio, ou em alguma parte dele.
10. Se se cultivam as suas margens, e se tem muito arvoredo de fruto, ou silvestre.
11. Se têm alguma virtude particular as suas águas.
12. Se conserva sempre o mesmo nome, ou começa a ter diferente em algumas partes, e como se chamam estas, ou se há memória que em outro tempo tivesse outro nome.
13. Se morre no mar, ou em outro rio, e como se chama este, e o sitio em que entra nele.
14. Se tem alguma cachoeira, represa, levada, ou açudes que lhe embaracem o ser navegável.
15. Se tem pontes de cantaria, ou de pau, quantas e em que sítio.
16. Se tem moinhos, lagares de azeite, pisões, noras ou algum outro engenho.
17. Se em algum tempo, ou no presente, se tirou ouro das suas areias.
18. Se os povos usam livremente as suas águas para a cultura dos campos, ou com alguma pensão.
19. Quantas léguas tem o rio, e as povoações por onde passa, desde o seu nascimento até onde acaba.
20. E qualquer coisa notável, que não vá neste interrogatório.
